ENTREVISTA VERA CARVALHO – BLOG LUVA. 29 de janeiro, 2021

Vera, você poderia falar um pouco sobre você e sua trajetória na escrita?

No milênio passado, anos 80, 90, escrevi diversos contos. Alguns foram premiados e publicados em antologias. Aos poucos fui me aventurando por textos maiores e cheguei ao romance policial. Em 2003 foi publicada pela editora Landscape a primeira investigação do detetive Alyrio Cobra: Paisagens Noturnas. Já naquele tempo, começavam os sites de publicação na internet. Depois começaram as plataformas mais profissionais. Acredito ter sido uma das pioneiras em publicação na internet. Antes de ser publicado pela Landscape, Paisagens Noturnas esteve num site de publicações. Desde então, passei por algumas editoras, e tenho oito romances e alguns contos protagonizados pelo detetive Alyrio Cobra. Meu novo livro: PEDRAS TROCADAS, acaba de ser lançado pela Luva editora.

Alyrio Cobra é um dos seus personagens mais carismáticos, como foi a construção dele?

Quem é Alyrio Cobra? Um quarentão, bonitão, abandonado pela esposa.  Até o divórcio exerceu sua profissão de advogado. Depois, largou tudo, caiu na vida e assumiu a profissão de detetive. Como ele surgiu?

O escritor suga tudo o que está à sua volta, faz uma seleção consciente/inconsciente e cria. Com certeza, Alyrio Cobra é uma junção de vários homens sonhados e da vida real! Além disso, sou uma leitora contumaz. Leio todos os gêneros, mas especialmente policiais. Com certeza, a criação do detetive Alyrio Cobra, além de situações da vida real, teve influência de escritores do mesmo gênero. Além de Sherlock Holmes, Poirot  e Maigret do Simenon (minhas primeiras leituras), influenciaram a criação de Alyrio, o escritor Andrea Camilleri com o comissário Salvo Montalbano, e Manuel Vasquez Montalbán com Pepe Carvalho, dois detetives com suas refeições fantásticas. Nos livros de Alyrio também tem sempre refeições especiais preparadas por George, seu melhor amigo e vizinho de escritório. Como a maioria dos detetives, Alyrio possui um amigo com quem troca ideias. George foi pensado para mostrar uma das características de cidade de São Paulo que é a gastronomia. Além disso, George é um companheiro, não com uma inteligência menor que se impressiona com os feitos do detetive, mas, ao contrário, ele é um cara que sabe das coisas e ajuda Alyrio em suas investigações.

Em sua escrita a cidade de São Paulo aparece sempre de forma marcante, você consideraria a cidade um personagem de suas histórias? E como é sua relação com SP?

Eu nasci e vivi por toda a vida na cidade de São Paulo. Gosto dela e acompanho sua evolução, seu crescimento, suas atrações culturais. Passei este gosto para o detetive Alyrio Cobra. Se por um lado, São Paulo é uma cidade cosmopolita que abriga todas as nacionalidades do mundo, ela é também um mundo propício ao noir. Desde mansões e bairros aristocráticos, até comunidades e Cracolândias a cidade mostra seu lado sombrio cheio de oportunidades para o crime. Acredito que cabe ao escritor, no caso, euzinha, captar as mazelas e sutilezas da consciência humana e as realidades ocultas da cidade, transformando-a num personagem.

Outro elemento recorrente em sua escrita é a culinária, você cozinha?

Eu cozinho. Gosto muito de cozinhar e também de comer! Adoro pratos especiais e as refeições preparadas por George já foram preparadas por mim. São receitas testadas! Pretendo agrupar as refeições preparadas por George em um livro.

Acredito que em uma casa, ou mesmo em empresas e restaurantes, a cozinha é um local mágico. Quem prepara a comida pode transmitir suas energias positivas ou negativas ao alimento, e até mesmo envenenar a comida!

Quais são os autores e livros que te marcaram, enquanto leitora?

Sou bem eclética, gosto de todos os gêneros quando são bem escritos. Adoro o gênero policial. Mas, quando comecei a escrever, anos 80, 90, um dos gêneros que me marcaram, foi o Realismo Mágico da América Latina. Li e reli Cem Anos de Solidão nem sei quantas vezes. O Amor Nos Tempos de Cólera é a melhor história de amor que já li. Fiz um trabalho de final de curso (PUC Literatura Latino Americana) sobre Conversa na Catedral de Mario Vargas Llosa.

Li muito Clarisse Lispector. Há dois anos, por influência da FLIP, reli Ilda Hilst. Bom demais! Gosto muito da Lígia Fagundes Telles. Enfim… Acredito que é bom reler obras importantes, pois amadurecemos e temos novas percepções.

No momento, tenho acompanhado os escritores de literatura policial no Brasil, especialmente as mulheres. Estamos vivendo uma época de muita produção.

Você já se aventurou em outro gênero que não o policial?

Sim, escrevo diferentes gêneros, mas gosto dos romances policiais por terem uma forma e uma estrutura bem definida: começo, meio e fim; ou crime, investigação e solução. O que é um desafio interessante de enfrentar.

Qual foi o livro que você mais se divertiu escrevendo?

Os livros do Alyrio me divertem bastante. Quando o leitor abre um romance policial ele tem certas expectativas. Quando se depara com o assassinato (ou contravenção), o leitor espera que o escritor aja como um ilusionista e vá levando a história, mostrando algumas pistas e fazendo-o acreditar que vai descobrir antes do detetive quem matou! É este jogo que o escritor tem de criar com o leitor, dando certas dicas e ainda no final conseguir surpreendê-lo. É um jogo bem desafiador. É um jogo que me diverte bastante!

Quais autores nacionais dentro e fora do policial, você recomenda?

Como já disse, tenho lido as autoras nacionais que escrevem romances policiais. Estamos produzindo obras muito boas. Publiquei na Revista Mystério Retrô um artigo sobre o assunto. Além disso, recomendo muito Ligia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Ilda Hilst, Rubem Fonseca. Acabei de ler MULHERES EMPILHADAS da Patrícia Melo. É um livro excelente e muito oportuno para o momento de feminicídios que estamos vivendo.

Quais seus planos para sua escrita em 2021?

Pretendo continuar acompanhando (lendo) os escritores contemporâneos, especialmente os do gênero policial. Também estou escrevendo um livro em que Alyrio Cobra investiga um caso durante a pandemia. Pretendo termina-lo nos próximos meses. Depois…. ainda não sei!

Por último, qual conselho você daria para os escritores iniciantes?

Nunca desista! A carreira literária, como a maioria das carreiras, traz muitas frustrações. Mas temos de seguir em frente, ser resilientes. E ler muito. Ler bons livros e analisa-los, reler bons diálogos, bons trechos. E não ter preguiça de fazer e refazer os próprios textos.

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